Saudades de comida

Caso alguém tenha notado o considerável hiato entre o post anterior e este, explico o motivo sucintamente: case-se e entenderá.

A explicação menos sucinta é: um dos maiores desafios da vida de casado é encontrar os limites entre a vida individual de cada participante do casamento, e da vida conjunta criada com o matrimônio. É um pleito diário, definir esses limites. Espero que eu melhore com a prática.

Nesse exato momento, estou no Trabalho, no meu horário de almoço. Sim, geralmente gasto meu horário de almoço na frente do computador. Sabe por quê? Porque eu costumava ter interesses na Internet, desses que no final do dia você dá uma navegadinha, lê umas notícias, escreve um blog, etc. Pois é, na atual cartografia dos limites acima mencionados, o território que contém essas atividades está fora do mapa. Por sorte essas fronteiras estão sempre mudando, como uma ameba tentando se mexer. Quem sabe um dia?

Optei por sempre almoçar no Trabalho porque não sou muito fã de dirigir, e odeio bem menos dirigir por dois percursos de trânsito diários do dirigir por quatro percursos diários. Por isso, não vou para casa. Sou boia-fria… até que aqueço a boia no microondas.

Quem prepara meu almoço é minha esposa. Desconfio que, se ela fosse brasileira (e não alemã), dificilmente o meu almoço de hoje seria filé-de-algum-peixe com duas batatas-assadas-com-casca-e-tudo. Desconfio que haveria arroz ali. E feijão. E … carne. De vaca. Suculenta, deliciosa. Provavelmente.

Por existir a possibilidade de eu _um_dia_ ir viver na Alemanha, fico pensando do que sentiria falta no Brasil. Estou excluindo família etc. e pensando só em coisas bem típicas do Brasil, tipo samba, assalto, sequestro-relâmpago, churrasco, saúde pública sofrível, dias de sol, presença de melanina na pele das pessoas, praias com mais areia do que pedregulhos, imensos recursos hídricos, um mendigo por semáforo, grande potencial de crescimento, …

Como todo brasileiro, acho muito mais fácil apontar as qualidades de lá e os defeitos daqui. Talvez por isso, até eu me mudar para lá e possivelmente mudar de opinião, creio que sentiria falta somente do clima e da comida.

Claro que depende do lugar e da época do ano, mas geralmente na Alemana é frio pra chuchu, úmido, ceu coberto de nuvens. Raramente as nuvens se dissipam e pode-se ver o Sol, mas continua frio do mesmo jeito. Acho extremamente tedioso ter que ficar se montando pra sair de um lugar e se desmontando ao chegar no outro. Camadas e mais camadas de roupas. Sobretudos, jaquetas. CACHECOL, peloamordedeus! Luvas! Tirar o sapato antes de entrar em casa para não sujar tudo de lama. Esse clima enche o saco. Mas acho que até dá para se acostumar. A comida… bem, talvez seja mais difícil.

Eu não sou uma pessoa que ama comer, que sempre quer ir a restaurantes e experimentar coisas novas e gostosas e que vai a churrascaria toda semana. Contudo, aprecio, sempre, o sabor das comidas que amo. Eu sinto o gosto do arroz, do feijão, da carne… e basicamente isso, né? É o que se come por aqui. Mas sempre é bom, sempre é gostoso. A gente vai ao mercado ou à feira e escolhe as frutas, verduras e legumes, ao nosso gosto. A gente vai ao açougue e escolhe a peça da carne: acém, coxão mole, filé mignon, patinho, contra-filé e muito mais. E a gente ainda olha o corte e fala se quer cortado de um jeito, ou de outro, ou com mais ou com menos gordura. A comida é sempre muito boa.

Certa vez na Alemanha, perguntei o que era a comida e me responderam: “carne”. Eu perguntei que tipo de carne, e me responderam: “fatiada”. Perguntei DE QUE ANIMAL vinha a carne e duas pessoas responderam, uma dizendo “ave” e outra dizendo “suíno”. E esse é o máximo de descrição que eu poderia conseguir. E qualquer descrição não mudaria o fato de que o gosto é sempre o mesmo: papelão. Servido com batata assada. Ou batata cozida. Ou purê de batata. Ou salada de batata com macarrão.

Tá, por lá eles comem uns peixes nórdicos super refinados (odeio) e tem toda aquela imensa variedade de salsichas, mas o fato é que a comida por lá tem gosto de tempero, de todas aquelas ervas e cogumelos que crescem no quintal e podem ser comidos.

Será que eles adoram a comida deles do jeito que eu adoro a comida daqui? Não sei. O que sei é que consigo me imaginar vivendo lá e pensando, durante uma refeição: “pô, que saudade de uma picanha ao alho com arroz branco”. E que nunca ouvi minha esposa, que ama comida brasileira, dizer: “nossa, que saudade de uma salsicha com ensopado de repolho e batatas”.

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