Num gabinete em Brasília (história verídica)

Sem dar nome a nenhum dos bois envolvidos, contarei o seguinte relato da podridão política que alguns têm o infortúnio de presenciar mais de perto que outros. Obviamente, tinha que ser em Brasília. É também interessante publicar isto na data de hoje, em que a reportagem de capa da Revista Época trata do enriquecimento de políticos ao longo do presente mandato presidencial.

Por coincidência (e extremo contraste), a história chegou a mim poucos dias depois de minha irmã retornar de Brasília, onde participou de uma entrevista que era parte do processo seletivo para uma bolsa de doutorado da CAPES. Ela está fazendo o doutorado dela numa universidade na Argentina, ligada a um museu onde se encontram muitos fósseis que fazem parte da pesquisa dela. Foi para lá com uma bolsa do governo argentino que é uma miséria digna da Argentina. A bolsa da CAPES, paga em dólares, não apenas possibilitaria mais conforto durante os quatro anos de duração do Doutorado, como também viabilizaria financeiramente algumas viagens a outros países americanos para o estudo de outros fósseis de interesse a sua pesquisa.

Minha irmã relata a decepção das centenas de pessoas que participaram da entrevista, ao lhes ser informado que o governo realizou cortes na verba destinada a esse tipo de apoio à pesquisa, e que por isso menos pessoas seriam selecionadas neste ano. Até o ano passado, eram concedidas 100 bolsas de estudo de pós-graduação em outros países. Em 2010, seriam concedidas 70 bolsas. Mas os entrevistadores não se cansavam de lembrar que “ter chegado até aqui é uma vitória pessoal de cada um de vocês; vocês são a elite intelectual deste país”.

A poucos metros dali, e ao mesmo tempo do OUTRO LADO DE UM ABISMO, determinado boi inominável aguardava em uma sala de espera de um gabinete de um político inominável. Estavam também na sala uma corja de assessores fazendo PORRA NENHUMA, que é o que as pessoas mais fazem em Bras-Ilha. E, como é típico de gente cujo único talento na vida é ser amigo de pessoas sem pudores de praticar o nepotismo, falavam abertamente bobagens de temas variados.

Em determinado momento, começaram a falar da campanha do Alckmin. Mais especificamente, sobre como a campanha dele não estava decolando. Então o boi inominável sugeriu que o Alckmin não tinha muito dinheiro para gastar com a campanha. E aí um assessor (de PORRA NENHUMA) disse:

Mas como isso é possível? Todo esse tempo de política e não conseguiu desviar dinheiro para campanha? É um idiota mesmo! E idiota tem que perder.

Desconcertado, o boi não encontrava palavras para reagir a tamanha falta de vergonha em defender tão abertamente a corrupção política. Para quebrar o silêncio desconfortável que se instalou no local, outra assessora (de porra nenhuma) comentou:

Ehm, mas é assim, TEM GENTE que prefere usar o dinheiro com o povo, e essas coisas…

O boi disse que precisava ir ao banheiro e resolveu esperar fora da sala. Suponho que o cheiro do banheiro mais pútrido da cidade devesse estar melhor que o odor naquele gabinete. E, provavelmente, em muitos outros.

PS: Minha irmã passou (em terceiro lugar) no processo seletivo e ganhou a bolsa da CAPES. Trinta pessoas a menos que no ano passado não conseguirão seguir sua carreira acadêmica como planejado porque é cada vez menor o número de políticos “que preferem gastar o dinheiro com o povo, e essas coisas”.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: