Jeitinho (ruim de) brasileiro – Parte 3 de 3

Putz, faz tanto tempo que eu nem lembro mais.

Como dizem aqui em Berlândia, “ieu peguei uns treim pa fazê”  e fui deixando o blog de lado até eu quase esquecer que tinha um. Vamos retomar por agora.

Então eu estava falando de umas coisas feias que vi na minha viagem de volta ao Brasil em fevereiro, e que por azar aconteceram uma após a outra. A terceira delas aconteceu no desembarque do voo, em Brasília.

Eu só desembarquei na Europa, a partir de voos internacionais, em dois aeroportos: o de Munique e o de Lisboa. Não sei como funciona em outros países, mas suponho que seja como acontece nesses dois que eu conheço: na “imigração”  tem uma fila para portadores de passaporte da União Europeia, e outra fila para o resto dos passageiros. Em Portugal tem também uma fila só para os países da CPLP (o que não adianta muita coisa para um voo vindo do Brasil). Apesar de haver filas separadas, caso haja pessoas viajando juntas portando passaportes diferentes, elas podem escolher qual fila tomar. Minha esposa tem a opção de escolher não usar a fila rápida para passaportes da União Europeia e ficar comigo na demorada fila comum, porque assim podemos ficar juntos até passarmos pela imigração. No Brasil, não é assim. Pelo menos não em Guarulhos ou Brasília, os aeroportos nos quais já desembarquei de voos internacionais.

Ao chegar no Brasil, uns funcionários pouco simpáticos tratam os passageiros como gado, separando brasileiros e estrangeiros em filas separadas. “Brasileiros deste lado, estrangeiros deste lado”. A fila dos estrangeiros sempre têm apenas uma pessoa atendendo. Mas se você experimenta perguntar se pode ir para a fila mais lenta para não se separar da sua companhia, o funcionário (público) aumenta a potência vocal e a abrangência dos gestos e repete: “BRASILEIROS DESTE LADO, ESTRANGEIROS DESTE LADO”.

Eu mencionei no post anterior que havia no avião uns 3 casais com bebês. Dois deles foram mais sortudos porque conseguiram os berços durante o voo. Um desses casais era formado por uma moça brasileira e um rapaz português. A sorte que tiveram no voo, não tiveram no desembarque.

A moça sendo brasileira e o rapaz sendo português, já os obrigava a tomar filas separadas. O bebê não era brasileiro, o que o obrigou a tomar a fila demorada com o pai. E o problema com os bebês é que, assim como os funcionários públicos mal encarados nos aeroportos, não adianta dialogar com eles. Por mais que se quisesse explicar para o rebento (com poucos meses de idade), a criatura não compreendia e chorava e regateava no colo do pai, porque ele queria ir com a mãe. E aí ficaram o pai e a mãe, olhando um para o outro, separados pela tirania das fitas que delineavam as filas, sem saber o que fazer. E então, telepaticamente, com uma troca de olhares, decidiram conduzir-se até a autoridade e solicitar uma solução para o problema. Big mistake.

A mulher, se não me engano agente da polícia federal, observou o casal se aproximando com o bebê no colo, apontou para o rapaz português e GRITOU: “o senhor volte já para sua fila”. Assim, antes mesmo que alguém pudesse dizer alguma coisa. O rapaz desacelerou o passo, hesitante, e a agenta federala tirou do cinto um rádio de comunicação, apontou para o rapaz novamente e falou, num tom muito alto, chamando atenção de todas as pessoas: “VOLTA JÁ PRA SUA FILA!”

O casal estacou, surpreso com a cena fora de proporções. O rapaz balbuciou algumas palavras explicando sobre o bebê ser filho de brasileira, e a agenta da PF gritou explodindo em ira: “O SENHOR CALE A BOCA E VOLTE JÁ PRA SUA FILA OU ENTÃO VAI SAIR DAQUI DIRETO DE VOLTA PRO SEU PAÍS! E FIQUE QUIETO”.

Foi bem assustador. O bebê começou a chorar loucamente, então o pai apenas voltou para a fila tentando acalmá-lo. A mãe brasileira passou pela imigração (em 15 segundos) e ficou lá aflita esperando o resto da família passar. O que mais poderiam fazer? A funcionária federal era uma mocreia? Era. Demonstrou um comportamento irracional? Demonstrou. Mas e daí? Ela é a autoridade. Ela representa o Estado brasileiro. Se ela quiser mandar o português de volta, ela manda. Então todo mundo abaixa o rabinho entre as pernas, engole a indignação e espera para tomar os próximos passos, quietinhos.

Ao reunirem-se, os pais do bebê português começaram a perguntar como poderiam registrar uma queixa contra o comportamento inadequado da mocreia federal. Eram umas 6 horas da manhã e foram informados de que deveriam esperar até as 8h00, quando chegaria o Delegado, a quem poderiam reclamar. Sentaram e esperaram.

No recolhimento de bagagem, outros passageiros manifestavam solidariedade simbólica ao casal, salientando que o ocorrido não tinha cabimento, que foi completamente desnecessário, etc. Minha carona já esperava lá fora, e saí sem ver o desfecho. Na minha imaginação, o final da história foi o seguinte: o casal esperou, o delegado chegou, apresentou dezenas de papéis a serem preenchidos, lançou advertências de que a queixa formal de alguma forma prenderia o casal no país por tempo indeterminado, impedindo-os de viajar para outros lugares, então era melhor deixar pra lá, porque afinal todo mundo tem seus dias difíceis, e que ele conversaria com a mocreia, que seria se-ve-ra-men-te … … punida? Não. Ah, ele ia conversar com ela. Tipo: ó, vai tomar um suquim de maracujá, que você está criando problemas pra mim. Posso estar equivocado, mas essa é a percepção que eu tenho do funcionalismo público. Nunca ouvi falar em punição nesse mondo bizarro deles.

Assim, num período bem curto, testemunhei brasileiros sendo rudes, desagradáveis e abusivos. Pensei comigo mesmo: “putaqueopariu, esse tal de brasileiro é uma racinha, mesmo”. Essa minha frase no Twitter, fora de contexto, inflamou os ânimos de alguns seguidores, mas tudo bem. Agora o contexto está aí. Que tem gente boa e gente ruim em qualquer lugar do mundo, OK. Mas eu tive um baita azar de observar esse jeitinho ruim de brasileiro bem na minha fuça, tantas vezes seguidas. Broxante.

Uma resposta para Jeitinho (ruim de) brasileiro – Parte 3 de 3

  1. Gustavo disse:

    Realmente, ela não será punida. Essa proteção ao servidor público atrapalha o próprio servidor, aquele que é honesto (acredite, há vários).

    Convivo com servidores o dia inteiro, no Fórum e na UFU. No primeiro, dei sorte. A 5ª Vara Cível é até bem conhecida pelos funcionários que tem. Gente trabalhadora, educada e honesta. Sinto até um certo orgulho por já estar há tanto tempo com aquelas pessoas.

    Já na UFU, principalmente ali no Direito, não posso dizer o mesmo, ainda. Como se sabe, a FADIR era terra de ninguém: alguns professores apareciam quando queriam para dar aula. Alguns dias, você chegava lá e não tinha aula nenhuma, simplesmente porque o professor não deu as caras, mesmo o livro de ponto estando misteriosamente preenchido. Esse tipo de profissional sempre foi minoria, mas sempre teve cadeira cativa ali. Culpa de uma diretoria que há anos se revezava no controle da Faculdade.

    Os tempos mudaram, e há um ano uma nova diretoria conseguiu ser eleita. Ela é formada por professores mais jovens, que estão colocando ordem na casa. Aula todo dia, sem enrolação, com chamada etc.

    Contudo, os meus professores continuavam lá. Alguns deles simplesmente não se adaptaram à rotina de, hm, TER QUE LECIONAR. A nova diretoria não pode demitir. Tem que instaurar um processo administrativo que vai durar 3 anos e ainda pode acabar por não demitir os maus funcionários. Em um único caso (cidadão não aparecia há meses), conseguiu-se o afastamento do indivíduo e, se brincar, ainda é remunerado.

    Pra quem trabalhou na iniciativa privada, é muito, mas MUITO difícil entender a lógica do setor público. Salvo exceções, são instituições criadas para permanecerem sempre arcaicas, pouquíssimo práticas e, em muitos casos, de funcionalidade nula.

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