Jeitinho (ruim de) brasileiro – Parte 2 de 3

Continuando meu relato sobre o jeitinho ruim do braselero.

Depois de encontrar o casalzinho enfezado em Braunschweig, meu próximo encontro com brasileiros foi somente em Lisboa. Na sala de embarque, aquele axé todo nas pessoas, aquele calor humano que eu já comentei anteriormente. Já havia notado no ano anterior que os brasileiros também ignoram as instruções do embarque (grávidas e deficientes primeiro, seguido pelas poltronas das fileiras de tal a tal, etc). O povo todo fica em pé e por algum motivo quer ser o primeiro a entrar no avião. “Quem entrar por último vai pendurado no trem de pouso!” ??

Já dentro da aeronave, minha esposa notou que havia um rapaz sentado no lugar dela. Ali na classe econômica dos A330-200 da TAP há oito poltronas por fileira, divididas por dois corredores, de maneira que ficam quatro poltronas no centro, entre os corredores(AB-CDEF-GH, olhando de frente). O rapaz estava sentado na poltrona F. Quando minha esposa mostrou a passagem, indicando que havia algum engano, o rapaz mudou-se para a poltrona E. Aí foi minha vez de mostrar pra ele a passagem, pois ele estava sentado no meu lugar. Daí ele se levantou e foi para algum lugar lá atrás. Ficamos sem entender. Parecia que o rapazola queria se sentar em qualquer poltrona que não fosse a dele. Pouco antes da decolagem, ele retornou para seu assento, na fileira da frente (poltronas G e H) e começou a conversar com alguém que, aparentemente, estava junto com ele, e que estava se ajeitando na poltrona F e imediações:

— Caralho, que merda! Tentei de toda forma ficar com quatro poltronas pra eu dormir, e sempre aparecia um filho-de-uma-puta pra tomar o lugar. Puta que pariu, como eu vou dormir em apenas DUAS poltronas. Sifudê viu!

— Rá! Se fodeu! Eu consegui estas três poltronas pra mim. Só tem um babaca ali no canto. Mas vou esticar a perna até encostar nele, tou nem aí.

O babaca ali no canto era pai de duas crianças, uma de uns três anos e a outra um bebê de alguns meses. A criança mais velha estava ocupando uma poltrona; o bebê seguia no colo da mãe.

Mesmo enquanto ainda estavam acesos os indicadores de mater os cintos afivelados, os dois amiguinhos começaram a montar acampamento. O espertão que conseguiu as três poltronas pegou os travesseiros de cortesia de todas as três, fez uma almofadona, esticou-se pelos três lugares, entrou debaixo da coberta e se tampou até a cabeça. O ‘tadinho’ que ficou só com duas poltronas tirou os sapatos e as meias e começou uma intrincada busca pela posição ideal para se deitar no seu território. Fato é que qualquer pessoa com mais de um metro e meio de altura NÃO conseguiria deitar em duas poltronas, dado seu tamanho. Descobrindo essa amarga realidade, o cretino colocou as duas pernas penduradas para o lado do corredor. Minutos depois, o espertão das três poltronas esticou o braço na direção do corredor também. Com isso, os companheiros obstruíram totalmente a passagem por aquele corredor.

Mais de uma vez vi pessoas vindo pelo corredor obstruído em direção aos lavatórios, deparando-se com o bloqueio e voltando para tentar a sorte pelo outro corredor. Eu fiquei com uma baita vontade de passar por lá como se não tivesse nada no caminho e “oops, foi mal aí”, mas preferi não procurar encrenca numa caixa fechada se equilibrando no ar a 12 km de altitude. Até porque, previ, logo viria a comissária com o carrinho de bebidas e ela TERIA que passar por ali.

Dito e feito. E bem feito. O carrinho tem quase que exatamente a largura do corredor, e atropelou de leve os braços e pernas que não deveriam estar ali. Não sei se a comissária fez de propósito. Tomara que sim. Os dois folgados acordaram assustados e resmungaram impropérios, mas a moça apenas disse com seu sotaque tipicamente português:

— Ojs snhorejs devm tmar cuidado para não xe magoarem.

Algumas horas depois, a esposa do homem que o espertão-das-três-poltronas chamou de babaca cansou-se de segurar o bebê de colo e passou-o para o pai, que estava sentado ao lado do espertão. O bebê começou a chorar naquele volume que te faz perguntar como um pulmãozinho tão pequeno consegue tanta pressão sonora. O espertão tirou a cara pra fora da coberta e falou:

— Cara, seu filho não vai parar de chorar não?

e se tampou embaixo da coberta de novo. O homem ficou desconcertado. Chamou a comissária e perguntou se não poderia se remanejar para um assento onde pudesse instalar um berço para o bebê. O avião tinha dois locais para esse fim, mas ambos estavam já tomados por outros pais com bebês. A moça explicou que é possível também instalar um berço sobre as poltronas, mas para isso é preciso que haja duas poltronas adjacentes livres. Eles olharam para o espertão deitado sobre três poltronas adjacentes, mas a comissária disse: “o snhor devria ter informado de pronto. Agora eu não posso incomodar o passgeiro”.

Em dado momento, acenderam novamente os avisos de afivelar os cintos, e o comandante informou pelo PA que havia uma zona de turbulência à frente. Seguiu-se o som de centenas de cliques dos passageiros prendendo os cintos. Os dois folgadões permaneceram deitados, sem o cinto. Logo veio a comissária QUICANDO pelo corredor para acordá-los. Teve que insistir com os dois para se sentarem e apertarem os cintos. E eu em embate mental tentando aplacar o desejo de que o avião jogasse ambos contra as paredes, o que fatalmente seria péssimo pra mim, por isso tentei me manter zen.

A turbulência durou menos de dois minutos e foi branda. O espertão voltava a se acomodar em sua cama improvisada, quando o homem com o bebê perguntou-lhe gentilmente se ele poderia prosseguir a viagem sentado para que pudessem instalar um berço nas duas poltronas a mais que ele estava ocupando. O que o canalha respondeu foi uma das coisas mais revoltantes que eu já ouvi:

— Cê tá me zoando? Já sou obrigado a escutar grito de neném, pelo menos vou fazer isso deitado.

E tampou-se novamente com a coberta.

Valeria a pena iniciar um bate-boca em pleno voo? Apesar de estar em chamas, julguei que não. Engoli minha raiva e tentei inutilmente dormir pelo restante da viagem.

O avião pousou em Brasília antes das 6 da manhã, horário local. No desembarque, outro episódio, também envolvendo um bebê. Personagens diferentes, o mesmo nível de grosseria. Relato no próximo post.

8 respostas para Jeitinho (ruim de) brasileiro – Parte 2 de 3

  1. Olga disse:

    Puta que pariu!

  2. Ariovaldo Jr disse:

    Tem certeza que o cara não era uberlandense? hahaha

  3. Não é à toa que a TAP é conhecida, entre muitos europeus, como “o ônibus da Europa”. Minha amiga Paula, que já experimentou uma dúzia de linhas aéreas por toda a Europa, tem relatos bem semelhantes ao seu.

    Eu fui um dos que reagiu ao seu comentário no Twitter. Você disse que a reação foi exagerada mas, para mim, exagerado foi o modo como você se expressou. Te conhecendo, e sabendo como você é poderado, imagino que tenha sido apenas uma infeliz escolha de palavras. O fato de seu texto ter sido escrito por um brasileiro endossa a minha reação que, em momento nenhum, atacou sua pessoa, apenas suas opiniões.

    Vou pegar carona na sua generalização para criar uma pequena reflexão aqui: e o “jeitinho brasileiro passivo”? Boa parte da culpa pela falta de educação é do sujeito passivo desta, aquela pessoa que é “vítima” do impropério. As pessoas preferem não criar caso. Você mesmo deixou claro que optou por não iniciar uma discussão.

    Por que não? A coerção social é o principal fator na composição da postura de um indivíduo perante a sociedade. A pessoa invade o seu espaço e você permite, “para não criar discussão”. Se um terço das pessoas que tentaram passar por aquele corredor tivessem pedido licença àqueles invertebrados, duvido que eles não mudariam a postura. Não precisava nem discutir, apenas pedir licença.

    Gente espaçosa deita em você, se você permitir. Não dá para esperar bom senso desse tipo de gente. Sua reação não pode ser tácita, tem que ser expressa. Pessoas assim não entendem sinais e, se entendem, fingem que não.

    Seria lindo se todo mundo tivesse educação e ninguém precisasse ser repreendido, mas não é o que acontece. Essa passividade é tão irritante quanto a falta de educação, igualando-se a ela. Ninguém quer criar caso, porque criar caso é feio e dá preguiça. “Ok, a pessoa está me ferrando, mas não posso incomodá-la.”

    Obs.: Sobre o caso contado no post passado, a reação da mulher foi exagerada, mas os atendentes e vendedores alemães são mundialmente conhecidos pela falta de educação, pouca diligência e incapacidade de multi-tasking.

  4. Vou ilustrar com um caso recente. Nas minhas corridas matinais, na casa ao lado da minha, tem um cãozinho. Como a casa não tem grades e ninguém prende o animal, acontece dele avançar em quem está passando pela rua. Isso tem acontecido todos os dias, desde que aqueles vizinhos construíram aquela casa, há um ano.

    Comecei a passar por ali semana passada. Na primeira vez, o bicho avançou em mim. Ele se afasta, se você não mandar ele sair, assim como morde, se voce não fizer nada (mordeu a funcionária da minha casa, vim a descobrir mais tarde). De qualquer forma, é extremamente inconveniente. Considero uma baita falta de educação dos donos.

    A dona veio, sequer olhou na minha cara para pedir desculpas, virou-se para o cachorro e disse “entra pra dentro”.

    No segundo dia, a mesma coisa. Daí virei pra dona e disse, calmamente: “minha senhora, se o cão não tem educação, o dono tem que ter.” Posso ter soado grosseiro aqui mas, ali na hora, garanto que meu tom de voz era o de quem formulava um pedido e não uma ordem, mesmo esses vizinhos já terem se tornado notórios pela falta de educação.

    Só isso. Já passei lá mais de 10 vezes depois desse episódio, e o canino estava acorrentado.

    UM ANO avançando nas pessoas. Por que? Porque ninguém mandou a droga da mulher prender a droga do cachorro. As pessoas preferiram “não criar caso”.

  5. homemacido disse:

    Já aconteceu situação semelhante em um ônibus comigo. Eu passei de propósito e chutei o braço do cara, que se machucou. Ele olhou feio pra mim e eu disse que precisava passar. Só isso. Se te incomodasse tanto, você deveria ter chutado ele e fingido que estava dormindo, coisa que já fiz.

  6. Gilmour disse:

    Eu teria usado uma arma de fogo! hahahahhaha
    Adoro gente folgada… de 2 anos pra cá, mais do que nunca.

  7. […] eu estava falando de umas coisas feias que vi na minha viagem de volta ao Brasil em fevereiro, e que por azar […]

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