Escrever embriagado

Minha relação com a Universidade foi sempre conturbada. Durante uns 4 anos da minha vida universitária, eu ia lá para passar o dia inteiro fora da sala de aula, jogando conversa fora com outras pessoas que apresentavam uma, digamos, sintonia semelhante. Sócrates e Platão morreriam de inveja de nós, se já não estivessem mortos.

Eu raramente era aprovado em alguma matéria, principalmente as básicas, aquelas que permitem ao aluno avançar no curso. Por esse motivo, o normal era eu permanecer na mesma sala, inerte, assistindo à chegada de novos alunos. Aí eles eram aprovados, eu não, então vinha a próxima turma. E a próxima, e a próxima, ao longo muitos semestres. Até que um dia apareceu uma turma tão legal, que eu falei: “esses eu vou seguir”. E segui, até o fim do curso, e me formei, 90 anos depois de ter passado no Vestibular.

Das amizades firmadas naquele tempo, uma das mais valiosas foi com Filipe, também conhecido como @homemacido, cujo apelido, ao contrário dos que insinuam seu envolvimento com LSD, vem do fato de ele ter derrubado em um laboratório litros de ácido sulfúrico na primeira semana de aula, obrigando a evacuação do bloco. Em determinado momento, ele se mudou para um apartamento a um quarteirão de distância do meu. Nunca bebi tanta cerveja quanto naquele apartamento.

Boas lembranças de lá. Um tempo atrás, o então colega de apartamento do Filipe, Marcelo Toller (que pode ou não ser parente da Paula Toller) enviou-me um email com um arquivo do Word anexado. A data de criação do arquivo é 2 de junho de 2005, às 22:29. Ele jura que foi um texto que eu escrevi quando estava lá no apartamento, chapado de bêbado. Disse que eu simplesmente me sentei à frente do computador, escrevi, salvei e fui embora.

Devo confessar que não me lembro, mas é bem possível. Compartilho agora minhas palavras embriagadas, direto do túnel do tempo.

Isto é a prova cabal de que toda a sobriedade do mundo é desnecessária para quem tem capacidade de expressar a vontade do mundo.

Por exemplo, eu sou um ser humano homosapiens da especie que teve o privilégio de ter nascido pouco antes do ano 2000. Porque aí, quando a gente nasce nesta época, existem essas coisas chamadas computadores. Para os propósitos dos quais eu estou me utilizando neste momento, não faz muita diferença eu ter nascido exatamente nesta época. Porque, veja bem, isto poderia ser uma máquina de escrever. Se fosse uma máquina de escrever, talvez tudo isso poderia ser uma coisa vintage e estilosa, e com um cheiro de passado e de saudosismo e de felicidade.

Bendito o tempo em que as máquinas de escrever eram proliferadas.

Hoje em dia existem só computadores. Máquinas de escrever eram muito melhores. Era uma sensação que… me desculpe, leitor. Eu não posso prever a sua idade. Se eu pudesse prever a sua idade, eu saberia dizer se você teve o privilégio de ter nascido numa época em que as máquinas de escrever existiam em maior número que os computadores frios e impessoais. Para muitos de vocês, isso é uma lembrança saudosista, só uma referência de filmes antigos que não volta mais.

Acho uma pena. Porque vocês estão deixando de experimentar toda a maravilha de uma época maravilhosa. Tudo bem, vocês também terão uma época maravilhosa em que tudo será bom e saudosista. “Lembra do tempo em que os computadores precisavam de estar ligados na tomada para funcionar? A gente era feliz e não sabia”.

As pessoas eram felizes e não sabiam. Mas isso é normal. Elas nunca vão saber que são felizes enquanto são felizes. Vão esperar a felicidade morrer para notar a sua falta.

Se alguém pergunta para mim qual é o ano mais feliz de toda a existência, eu não teria dúvidas de dizer que é … Ninguém jamais vai saber. Os homens do presente apareceram e o futuro morreu para sempre. Adeus. Morram de vontade de ser felizes.

Acabou. É o fim do mundo. Deste mundo aqui.

2 respostas para Escrever embriagado

  1. tiogate disse:

    Pode-se aproveitar alguma coisa do texto, vai. Prova de que o método perfeito para escrever um livro é encher a cara, soltar o verbo (textual), deixar a ressaca passar e depois aparar as arestas. Receita de sucesso, podem anotar.

  2. […] Mestrado. Eu não queria mais qualquer tipo de relação com a Universidade. Até porque, como relatei antes, eu levei 90 anos para me formar. Eu só me decidi porque um certo professor sugeriu que eu poderia […]

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