Tudo em seu devido lugar

Já houve muita agonia, durante muito tempo. Compulsão, obcessão, transtorno. Não por opção, sim por condição. O nome não diminuía o sofrimento. Mas não mais.  Basta fazer seu serviço. O alívio enfileira-se a sua frente, trazendo contagens:

“… … … vinte e oito ítens…”,

tipos:

“legumes, verduras, congelados, limpeza…”,

formas:

“quadrado, redondo, cilíndrico, retangular…”,

e cores:

“caixa amarela, garrafa preta.”

Não faz parte do seu serviço, mas ela entrega tudo em seu devido lugar. Se alguém lhe agradecer pela gentileza prestada, ela não revela que eles é que lhe fazem o favor maior, permitindo que ela o preste.

A máquina em sua frente computa um numeral que ela mesma já havia calculado.

“Noventa e seis reais e quarenta e dois centavos pelos vinte e oito ítens.”

Quantas notas de dinheiro? Quantas moedas? Um cartão. Uma senha. Seis dígitos. Depois tecla verde. Em ordem.

Ela deve somente entregar o papel, mas… por que refrear o impulso? Ela o traz de volta, passa os olhos, durante um segundo, pelas linhas impressas e diz, confiante:

“O item mais caro foi o cereal. Nove reais e vinte e nove centavos. Boa tarde, senhor. Próximo!”

O alívio continua enfileirado a sua frente. Durante seis horas por dia, é mais fácil respirar.

Uma resposta para Tudo em seu devido lugar

  1. renner disse:

    Toc? Nãaaao.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: