Por que escrever?

Não é novidade pra ninguém, creio, que a palavra blog vem de uma contração mutante de weblog, que seria nada mais do que um registro, na web, das atividades de um internauta. Maneira fácil de manter contatos distantes informados. Os visitantes do blog poderiam saber o que o autor andou fazendo ultimamente, ver uma foto ou outra, etc. Devemos lembrar que estamos falando de uma era anterior a redes de relacionamento, em que a ideia de mural de recados, álbum de foto e todo esse ‘recurso’ que abunda por aí simplesmente não existia.

Não tardou para que o blog deixasse de conter relatos e passasse a mostrar histórias, contos, opiniões, debates, críticas, etc. Nesse sentido, acredito que o blog tenha se aproximado da noção de literatura — mas isso é uma discussão interminável e não há consenso até hoje. E parece ser uma tendência: a ideia original de um blog era registrar atividades na web, como sites visitados, etc;  a ideia original do Twitter era “responder à questão: o que você está fazendo agora?”. Ainda se veem resquícios do intento original do Twitter, quando lemos coisas como “indo ao dentista” ou “comendo um doce na padaria”. Porém, de maneira geral, o micro-blog, bem como o seu macro-antecessor, tornou-se um espaço de opiniões, reclamações, etc.

Parece que as pessoas não podem se conter: elas têm mais a dizer do que simplesmente os sites que andam visitando ou o que estão fazendo neste instante. Elas querem se expressar.

Mas expressar o quê? E qual o risco disso?

Tem gente que tem blog para dar opiniões. Os textos variam de sérios a irreverentes, assim como os temas. Os riscos dessa modalidade são clássicos: os leitores atribuem uma personalidade ao autor, baseada nas opiniões emitidas. O autor pode ser gentil e solidário mas, aos olhos dos leitores, é um canalha que cospe marimbondos envenenados. Pode também ser uma pessoa extrovertida e acessível mas que, por ter resolvido escrever opiniões sobre filmes franceses antigos, é visto como um intelectual arrogante de quem se deve guardar uma distância segura.

Outros usam o blog apenas como meio de divulgação para suas produções literárias. Porque publicar um livro, apesar de fácil hoje em dia, ainda custa dinheiro que a maioria dos autores simplesmente não tem. Então difundem sua ficção online, em busca de leitores que apreciem o seu trabalho. Mas os leitores, por estarem lendo um blog, interpretam o que leem como experiências do autor. O autor casado que escreveu aquele conto suculento sobre adultério desperta sérias suspeitas, e em breve estarão falando por aí que seu casamento está por um fio.

Parece, portanto, que a PESSOA do autor sempre sofre consequências por causa daquilo que ele publica, que torna público. Era essa sua intenção?

Imagino que ninguém publica apenas porque quer escrever. Se quisesse apenas escrever, escreveria num caderno, num arquivo do computador, para si mesmo apenas. Se a pessoa decide publicar, seja livro impresso, seja material na web, é porque ela quer ser lida. Por que isso? Quer chamar atenção para si? Acha que o que tem a dizer possui o poder de modificar a vida dos outros?

Desconfio que a resposta para a pergunta “por que publicar um blog” seja bem próxima da resposta à pergunta “por que escrever um livro”. Será que estou errado? Seria interessante ler a opinião de outros a esse respeito.

8 respostas para Por que escrever?

  1. Ariovaldo Jr disse:

    Demorei a apreciar textos alheios por que eu não era capaz de compreender que as verdades de cada um estão além das próprias palavras. Entendi que o texto é uma das formas que alguém encontra para expressar aquilo que não dá pra dizer de outra maneira.

    E então descobri qu eu também gosto de me expor através desses métodos todos. Afinal, quem não se expõe, jamais torna-se acessível aos que ainda são desconhecidos.

  2. Gustavo disse:

    Taí a questão. Eu até sei explicar porque gosto de escrever, mas é difícil saber porque gosto de PUBLICAR. De uma forma bem tosca, acho que é igual ter uma banda: ensaiar no estúdio é legal pacas, mas tocar num palco é bem melhor.

    O blog, pra mim, é a melhor ferramenta que tenho para expor meus pontos de vista, mesmo que eles não valham nada pra ninguém. Além disso, eu penso: se escrever é algo que me dá prazer, por que não compartilhar o resultado final dessa experiência? Acho que no fim das contas, as pessoas gostam de compartilhar o que lhes dá satisfação.

  3. renner disse:

    A comunicação é a única forma VERDADEIRA de magia.

    Digo verdadeira com letras colossais pois isso não depende de uma ‘sensibilidade sobrenatural’ ou outra boiolagem espiritual/metafísica do gênero. Isso é algo que qualquer pessoa que reflita sobre a comunicação percebe, é um axioma. Lógico, desde que a pessoa compreenda o significado da palavra magia da mesma forma que uso: ‘algo que altera a realidade ao ser feito, realizado, gerado’.

    Quando nos comunicamos, nós MUDAMOS o mundo ao nosso redor. Sempre. Indiscutivelmente.

    E isso funciona em mão-dupla. Explico limitando o argumento ao escrever, já que é o mote deste post, já avisando que acho que isso funciona em qualquer tipo de comunicação.

    Quem escreve muda o outro. Porque ao ler, leitor partirá de um estado pré-leitura, isento daquilo que leu, e chegará a um estado pós-leitura que terá gerado um incremento de informação, uma aceitação ou negação (mesmo que pela indiferença), uma análise (ainda que ínfima) do conteúdo lido.

    Quem lê muda a mensagem. Isso porque nossa forma de entender o mundo é diferente para cada um de nós. Nossa compilação de informações pretéritas é acessada, nossas experiências comparadas, a decodificação é feita com parâmetros pessoais, o aproveitamento do conteúdo é decorrente desses fatores e muitíssimos outros, todos interdependentes.

    Quem escreve acaba alterando a si mesmo! Quando escrevemos, temos no receptor de nossa mensagem um verdadeiro alvo. Sim, temos como meta nos comunicarmos, e para isso valem todos os tipos de estratégias, sejam elaboradas de forma consciente ou não.

    Num exemplo limitado, lembro que nós acabamos nos limitando quanto ao que podemos escrever para determinado público evitando uma gafe ou blasfêmia, por exemplo. Outro exemplo é a escolha do estilo de escrita: aqui eu posto sem pudores palavras e períodos longos. No Orkut eu estaria me expondo como pseudo-intelectual se o fizesse.

    Depois de circular pelo óbvio, fica a pergunta: porque essas picométricas alterações geradas pela comunicação podem ser comparadas à magia, à possibilidade de alterar a realidade?

    Oras, se nossa interpretação do mundo é decorrente da análise de informações anteriores, quando nós efetivamente obtemos êxito em fixamos uma nova informação no acervo de outrem, passamos a alterar sua percepção da realidade. E não é necessário saber filosofia hodierna pra perceber que o nosso atual paradigma de ‘realidade’ cada vez mais se aproxima do paradigma da ‘percepção’. As diversas interpretaçõas dadas ao sucesso e à infuência do filme “The Matrix”, em todas as camadas sociais e intelectuais, são fortes argumentos a esse respeito.

    Well, tudo isso quando eu poderia ter respondido “bom post”.

    Viu, eu alterei minha forma de postar por saber que gente qualificada lê esse blog. E nem precisei fazer terapia via internet pra isso!

    Cheers!

  4. renner disse:

    É, parece que eu adorei a palavra ‘limitado’. Acho que foi a pressão que o limite de caracteres impôs sobre mim. Maledetto TwiStter..

  5. […] By tiogate Vou admitir neste momento que os comentários que recebi já valeram a pena eu ter aberto este blog. E não é (apenas) porque significa que as […]

  6. Olga disse:

    Essa é uma questão na qual eu nunca tinha pensado, pelo menos nesses termos.
    Há alguns meses eu responderia várias outras coisas, ou melhor, eu nem responderia.

    Hoje eu só consigo pensar que ninguém quer viver isolado. Ao menos, ninguém deveria.

  7. […] de um mês e surgiu simplesmente da vontade que tenho de escrever e (como já foi razoavelmente discutido e comentado) de ser lido. Como acontece com diversos produtos de diversas mídias, o pico de […]

  8. […] minha primordial discussão no blog: por que publicar o que se escreve? É para conquistar admiração? Então, se você é um […]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: